#041: Ditko by Moore
“Há algo de febril em Steve Ditko”
Alan Moore – In the Search of Steve Ditko, documentário de 2007
“Ele largou seu trabalho e entrou de cabeça nos quadrinhos, o que naquela época era considerado uma loucura. Ele preencheu cada um daqueles painéis com amor. Ele os amou tanto que tentou fazer com que se tornassem algo que provocasse reflexão e sentimentos, que abordasse questões importantes, que falasse com as pessoas da mesma forma que os super-heróis falavam com ele...
Ele não podia amar mais os gibis de heróis nem se tentasse. Jack Kirby era seu ídolo, Ditko era seu ídolo. Foi o amor que fez ele ser quem ele é”.
Leah Moore, sobre seu pai – thread do Twitter
“Ele morava num quarto no andar de cima de uma lojinha
Ele tinha um baú de livros de Ayn Rand
Ele era míope e recluso,
E se recusava a ser fotografado.
Ele desenhou uma HQ de super-herói.
Ele via o mundo em preto e branco.
Ele disse: “Um dia de trabalho por um dia de pagamento.”
“Esse é nosso único direito.”
Ele pega um cartão e escurece a metade
Para demonstrar o que ele quer dizer.
Ele diz: “Aqui tem o preto e aqui tem o branco,”
“Aqui tem o errado e aqui tem o certo,”
“E no meio não tem nada. Nada.”
Foi o que Mr. A disse.”
Trecho da canção Mr.A do Emperor of Ice Cream, letra de Alan Moore
Poucos criadores marcaram rupturas tão evidentes na história dos quadrinhos quanto Steve Ditko e Alan Moore. Moore trouxe intelectualidade high brown para algo que essencialmente era feito para entreter crianças de 12 anos, já Ditko trouxe um desconforto e fragilidade tão estranhos àquelas páginas, seu traço contaminou aquele mundo polido com neurose, mostrou que naquele panteão apolíneo os freaks também tinham seu lugar através das agruras do jovem Peter Parker, desenhado e concebido à imagem e semelhança do Ditko adolescente, com direito até a laboratório em casa, tal e qual seu cocriador tinha. “Seus personagens sempre parecem estar à beira de um colapso ou de uma revelação” disse Moore certa vez, serve para Parker e seu elenco de apoio dos anos 60, eles eram a versão necessitada de acompanhamento psiquiátrico de Archie e a turma de Riverdale.
Esse angst, essa angústia e estranheza tão típicos de Ditko fez com que leitores um pouco mais velhos se identificassem de cara com o Homem-Aranha. O que chega a ser bastante irônico, já que o desenhista desprezava abertamente esses sentimentos.
Ditko era seguidor ferrenho da filosofia objetivista. Resumo rápido e superficial: para eles, A é A. Ou seja, nada é aberto à subjetividade, a verdade se evidencia por si só e qualquer tentativa de relativizar as coisas é fraqueza ou corrupção intelectual. Existe o bem e o mal e absolutamente nada entre eles, você está de um lado ou de outro. Ponto. Ayn Rand fugiu da Rússia e em vez de procurar terapia para curar seu trauma, criou essa filosofia e o mundo das artes paga por isso até hoje. Segundo ela, o homem superior reconhece a verdade implícita das coisas e o desejo pessoal se sobrepõe a tudo. A coletividade é a armadilha dos fracos.
Alan Moore encontrou o trabalho de Ditko aos 7 ou 8 anos. Lhe pegou pelo tormento elegante. Nas palavras dele, “um tipo de claustrofobia, um tipo de paranoia em seu trabalho. Durante os anos 60, aprendi muito rapidamente sobre as fontes das ideias dele e percebi logo no início que ele era muito fã dos escritos de Rand. Tive que ler A Nascente. Devo dizer que achei a filosofia dela risível. Era um ‘sonho supremacista branco de raça superior’, resumido ao início do século XX. As ideias dela não me atraíram, mas pareciam ser o tipo de ideia que as pessoas defenderiam, pessoas que secretamente se consideram parte da elite, e não da maioria excluída”.
Um dos muitos pontos de cisão entre Ditko e Stan Lee quanto aos rumos do Homem-Aranha vieram justamente da filosofia que o desenhista seguia. Fiel em manter a eterna ilusão de evolução, Lee queria que Parker se formasse. O desenhista era contra essa ideia porque uma vez formado Peter deveria deixar todas suas dúvidas existenciais – basicamente o motor do gibi - para trás e se tornar um “homem de verdade”, útil à sociedade e à sua causa maior. Aliás, existe um quadrinho maravilhoso sobre isso, Batata Quente de Diego Gerlach, uma releitura do Homem-Aranha segundo os credos e princípios objetivistas de Ditko. É maravilhoso e engraçado. Lee, sempre de olho no negócio e com o dedo no pulso de seus leitores jamais permitiria isso. Gota d´água. Ditko partiu.
Os fãs angariavam simpatia a Ditko graças à eterna exploração e falta de crédito comum aos arquitetos do Universo Marvel, mal sabiam eles o que esperaria o Homem-Aranha se ele continuasse nas mãos do autor... provavelmente Parker se tornaria o Mr. A, personagem que Ditko criou logo depois e publicou de maneira independente ao longo de quase três décadas. Mr. A basicamente é Steve Ditko mostrando ao mundo o que seria um herói de verdade ao contrário do neurótico Aranha.
Meu Deus.
Em Mr. A basicamente não existem histórias. Ditko nem tenta fingir isso. O que existe é alguém cometendo algum delito e Mr. A seguindo implacável em direção ao criminoso. Tudo emoldurado por longas explanações sobre a filosofia objetivista. É um não-personagem, força motriz moral pura. Ao longo das décadas, já nos anos 80 e 90, os diálogos de Mr. A se transformam, não parecem mais frases de personagens, são diatribes detalhando o significado e conceito por trás de valores do mundo moderno, o ritmo de palavras se torna algo verdadeiramente febril, quase um fluxo filosófico delirante, entremeado por cenas de ação quase aleatórias.
Moore relembra “no final dos anos 60, e o fandom de quadrinhos britânico tinha uma forte influência hippie. Apesar de Steve Ditko ser obviamente um herói para eles com seu trabalho psicodélico em Doutor Estranho e pela angústia adolescente do Homem-Aranha, suas posições políticas eram claramente muito diferentes das desses fãs. Seus pontos de vista transpareciam em suas representações do Mr. A e dos manifestantes ou beatniks que ocasionalmente surgiam em seus outros trabalhos. E isso provavelmente me levou a retratar Rorschach (calcado diretamente no Questão de Ditko) como um personagem extremamente de direita.”
Em algum momento Ditko leu Watchmen. Segundo uma anedota apócrifa, quando um amigo em visita perguntou o que ele achou do personagem Rorschasch, ele teria comentado “bem, ele é como Mr.A, só que ele é psicótico”.
Os caminhos de Ditko e do personagem criado por Alan Moore voltariam a se cruzar em 2020 na maxi-série Rorsasch de Tom King e Jorge Fornés, um dos poucos derivados de Watchmen que valem o papel onde foram impressos. Assim como o original é uma obra sobre seu tempo: no caso os perigos do Q-Anon e como ao olhar de perto a loucura ela se torna parte de você. É sensacional. Talvez dure um pouco mais do que deveria, mas é sensacional.
O curioso é que nessa obra abertamente conspiracionista, King insere pessoas do mundo real em versões nada elogiosas para dizer o mínimo, entre eles Frank Miller, Otto Binder e claro, Steve Ditko, espinha dorsal da história. Mas não exatamente Ditko, um personagem que claramente É Steve Ditko, mas com outro nome. Na trama um homem vestido de Rorsasch faz um atentado fracassado a um candidato à presidência. É abatido e a investigação revela que ele é um desenhista recluso que fez muito sucesso com uma criação nos anos 60 e começou lentamente a cortar laços com todos à medida que entrava cada vez mais no mundo das conspirações. É Ditko. Mesmo sem o nome. King explicou sua decisão criativa dizendo que existem muitas entrevistas de Miller e Binder, logo, ambos são figuras públicas. Já Ditko optou pelo silêncio ao longo das décadas, apenas sua obra fala por si. King não se sentiu no direito de usar a figura privada Steve Ditko, embora tudo que o cercasse e sua relação com Mr.A/Questão/Rorsasch fosse bom demais para ele NÂO usar.
A visão de Ditko perante o fandom não difere muito da imagem da maxi-série: um recluso morando em um quarto, trabalhando da mão para a boca. Recusando fotos e entrevistas. Com moralidade em preto e branco. Fazia fanzines febris que poucos leram e que sequer se importavam em fingir que eram histórias, vendidos de mão em mão, pelo correio e posteriormente pela internet. O site está no ar até hoje. A venda é feita diretamente no site de Ditko.
E esses foram seus últimos 30 anos de vida.
“Steve poderia ser um sucesso em seus termos. Ele apenas não quer, ele não se importa com dinheiro.” Disse John Romita certa vez. “Ele prefere passar o resto da vida em um estúdio pequeno, autopublicando suas ideias em preto e branco do que comprometer sua visão”. Ainda que fazendo trabalhos ocasionais para a Marvel, consistentemente recusou propostas cada vez maiores da editora para alguma graphic novel com o Homem-Aranha que juntasse ele e Stan Lee.
Existem diversas histórias de desenhistas que visitavam seu estúdio e encontravam cheques da Marvel com royalties. Nunca foram descontados.
Essa era a visão pública do homem.
Mas como sempre as coisas não são bem assim.
Poucos anos depois de sua morte seu sobrinho Patrick Ditko tentou reverter essa imagem. O tio afetuoso, espontâneo e brincalhão que ele conheceu ao longo de toda a vida não correspondia a essa imagem de eremita recluso. Ao todo, existiam cerca de 3 ou 4 fotografias de Steve Ditko a circular em qualquer matéria sobre ele. Patrick abriu os arquivos da família e de fato, os vídeos e fotos são surpreendentes. São momentos banais, em festa de família, Natal e visitas do tio famoso, Steve Ditko preparando um pão gigante, fazendo gracejos fingindo ser um bebê, realizando truques de mágica... um homem risonho e integrado, repleto de leveza, um sujeito genuinamente divertido esbanjando um humor ausente na secura desértica do seu trabalho. Na cidade pequena onde ele cresceu não era o recluso criador do Homem-Aranha, era apenas o tio Steve que morava em Nova York.
Outro aspecto que veio à tona com o tempo foi sua parceria de quase 12 anos com Eric Stanton. Grande amigo dos tempos da escola de arte que dividiu estúdio com ele. Stanton era artista de revistas baratas de fetiche. Quando um dos dois enfrentava prazos apertados era comum que colaborassem informalmente, ajudando um ao outro em determinadas tarefas. Garimpando você encontra artes de Steve Ditko em revistas de bondage de quinta categoria. Stanton teve participações menores na gênese do Homem-Aranha, como por exemplo a Tia May, inspirada na tia de Stanton – também chamada May - que sequer desconfiava como o bom rapaz ganhava a vida. Até o fim da vida Eric reforçou que embora levasse seu trabalho extremamente a sério, Ditko era um bom amigo, divertido e parceiro. A participação de Stanton na criação do Homem-Aranha foi “quase inexistente”, segundo o próprio, mas relembrou que ele e Ditko chegaram a desenvolver storyboards juntos e que ele sugeriu algumas ideias. Ainda assim, enfatizou que tudo era essencialmente criação de Ditko. Segundo ele talvez sua principal contribuição fora a Tia May tenha sido a ideia das teias saindo diretamente das mãos do personagem.
Ditko morreu em 2018. Os depoimentos deixam a certeza de que é impossível enxergar alguém em sua totalidade.
Após sua morte pela primeira vez o irmão e o sobrinho entraram em seu apartamento em Nova York. O irmão se questiona até hoje como ele poderia viver dessa maneira. Vindo da arborizada Pennsylvania acabou em um apartamento pequeno, sujo e claustrofóbico, atulhado de caixas até o teto, com janelas que davam apenas para outras janelas, sem horizonte. Se perguntou por que ele nunca pediu ajuda ou voltou para a família? Eles achavam que ele estava indo bem.
Foram avisados por um policial. O que impediu que fosse enterrado como um indigente. O policial, antigo fã de quadrinhos, reconheceu o nome e não iria deixar Steve Ditko ter um enterro tão indigno. Foi atrás dos parentes em outro estado e acionou a família.
Convicções têm um preço caro.
Moore segue: “Posso olhar para a obra de Salvador Dalí e me maravilhar com ela, apesar de acreditar que Dalí provavelmente era um ser humano completamente repugnante e quase fascista, mas isso não diminui o gênio de sua arte. Com Steve Ditko, pelo menos eu sentia que, embora a agenda política de Steve Ditko fosse muito diferente da minha, ele tinha uma agenda política, e isso, de certa forma, o colocava acima da maioria de seus contemporâneos.
Steve Ditko está completamente no extremo oposto do espectro político em relação a mim. Eu não diria que sou de extrema esquerda em termos de comunismo, mas sou anarquista, o que é diametralmente oposto à posição de Steve Ditko. Mas tenho muito respeito por ele, e certamente respeito por sua arte, e pelo fato de haver algo em sua atitude intransigente com a qual simpatizo bastante. A questão é que as coisas com as quais eu não abriria mão, ou com as quais ele não abriria mão, provavelmente são muito diferentes.”
E segue falando com admiração de uma pessoa tão diferente e ao mesmo tempo tão semelhante. Um espelho invertido.
“Mesmo que você não concorde com os valores morais deles, uma pessoa com um forte código moral é algo precioso no mundo atual.” Conclui.
De fato.













Baita texto!
Fascinante como, talvez justamente pela sua visão de mundo, Ditko produziu contrastes tão profundos.
O trabalhador fiel, sério, dedicado e, como diz o texto, quase uma figura eremitica; mas na vida pessoal foi afetuoso, deixando memórias carinhosas com quem o teve por perto.
Ao mesmo tempo, vejo isso na arte dele. Personagens "duros", quase quadrados (isso não quer dizer uma arte travada, contudo), muitas vezes rodeados por organicidade e caos, como a psicodelia do Dr. Estranho ou os conceitos científicos alucinados do Homem-Aranha.
Invariavelmente humanos. Menos gloriosos do que as figuras do Kirby.
Quando vi o layout da primeira página do Mr. A aqui no artigo, não pude deixar de notar o quanto ele substituiu toda essa organicidade e caos por preto e branco e figuras quadradas, bem delineadas.
Já na segunda a imagem, por mais que haja uma psicodelia digna do Dr. Estranho, o caminho do Mr. A segue plano, branco, reto, liso.
Talvez seja como ele enxergou o próprio caminho.